Dezenove universidades brasileiras firmaram uma ação conjunta para articular pesquisas e políticas voltadas ao desenvolvimento sustentável do Cerrado. Com a criação do Instituto Nacional do Cerrado (INC) — instalado provisoriamente na Universidade de Brasília (UNB) — a iniciativa busca unificar esforços científicos, captar recursos e influenciar políticas públicas para frear o avanço do desmatamento e proteger um dos biomas mais importantes do país.
A nova instituição nasce com metas claras: estruturar pesquisas, formar recursos humanos e articular parcerias nacionais e internacionais para pôr em prática medidas de conservação que dialoguem com o agronegócio e o uso do solo. O INC foi criado em dezembro de 2025 e terá sede provisória na UNB, em Brasília, com a professora Mercedes Bustamante, da área de ecologia da universidade, como diretora executiva. A articulação entre 19 universidades pretende transformar o instituto em um núcleo articulador de pesquisa aplicada, capaz de produzir diagnósticos, cenários e recomendações de gestão territorial. Bustamante ressalta que a evidência científica deve orientar decisões: “O avanço da conversão da vegetação gera impactos negativos para o próprio agronegócio pela perda de biodiversidade, dos serviços ecossistêmicos e da mudança do clima. A conservação ambiental precisa ser vista como componente central para que o agronegócio seja viável.”
Para ganhar eficiência, o INC pretende qualificar-se como organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), papel estratégico para acessar recursos públicos e parcerias técnico-científicas. A proposta prevê também a realização de eventos científicos e a integração de laboratórios e bases de dados das universidades participantes, o que permitirá padronizar metodologias e ampliar a capacidade de monitoramento do bioma.
Recursos, estrutura e prioridades de pesquisa
A sustentabilidade financeira é a primeira barreira a ser superada. O diretor administrativo-financeiro do INC, o professor Laerte Ferreira, da Universidade Federal de Goiás, estima que a instituição precisará de cerca de R$ 10 milhões por ano para iniciar atividades: “Com esses 10 milhões, a gente poderia ter um apoio de bolsas pós-doc para cientistas, jovens cientistas em cada uma dessas instituições, ter essa pequena estrutura administrativa de gestão, organizar eventos científicos.”
A lista de prioridades inclui: pesquisas sobre serviços ecossistêmicos (como regulação hídrica e polinização), estudos sobre dinâmica de uso e ocupação do solo, modelos de planejamento territorial e desenvolvimento de práticas de restauração ecológica compatíveis com as cadeias produtivas locais. Outro eixo é o fortalecimento da formação de recursos humanos, com bolsas e programas de pós-graduação que sejam diretamente articulados às demandas regionais. A equipe do INC também pretende concorrer a fundos internacionais e nacionais — incluindo mecanismos como o Fundo Amazônia — para diversificar as fontes de financiamento.
Urgência diante dos números e desafios para políticas públicas
Os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) dão a dimensão do desafio: entre agosto de 2024 e julho de 2025, o Cerrado perdeu 7.200 quilômetros quadrados de vegetação nativa — um território equivalente a aproximadamente duas vezes o tamanho do estado de Sergipe —, embora o período tenha registrado o segundo ano seguido de queda na taxa de desmatamento. Ainda assim, especialistas e representantes do INC alertam que a redução relativa não é motivo para acomodação e que há necessidade de acelerar ações de conservação e restauração.
A articulação proposta pelo INC busca exatamente traduzir resultados científicos em políticas públicas capazes de reavaliar modelos vigentes de uso e ocupação do solo. Segundo Bustamante, o planejamento territorial orientado pela melhor ciência disponível pode contribuir para políticas mais eficazes: identificação de áreas prioritárias para conservação, instrumentos econômicos de incentivo à proteção e programas que conciliem produção e recuperação ambiental. Além disso, o Cerrado e o Pampa seguem sem unidade específica de pesquisa vinculada ao MCTI, uma lacuna que o INC espera preencher.
A criação do instituto é vista por seus idealizadores como um passo importante, mas insuficiente se não vier acompanhado de financiamentos regulares e articulação entre governos, setor produtivo e sociedade civil. O desafio nos próximos meses será estruturar a governança interna do INC, consolidar parcerias e demonstrar resultados iniciais que justifiquem aportes mais robustos de recursos. PALAVRA-CHAVE: preservação do Cerrado
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