Guia orienta mudança no rastreamento do colo do útero

teste de DNA-HPV

A Fundação do Câncer lançou uma versão atualizada do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero para orientar profissionais de saúde na transição do Papanicolau para o teste molecular de DNA-HPV. A mudança, incorporada recentemente pelo SUS, busca ampliar a detecção precoce do vírus oncogênico e alinhar o Brasil às novas diretrizes nacionais e às metas da OMS para eliminação da doença. O guia chega em meio a ações de vacinação e a um processo gradativo de implementação em municípios de diferentes estados.

A atualização esclarece quem deve ser rastreado, como interpretar os resultados e como articular a rede de atenção — desde a coleta até o encaminhamento para colposcopia e tratamento. A seguir, explicamos o que muda na prática para pacientes e serviços de saúde. O principal ponto desta transição é a substituição gradual da citologia (Papanicolau) pelo teste molecular de DNA-HPV como método de rastreamento no SUS. Enquanto o Papanicolau identifica alterações celulares que já ocorreram, o teste de DNA-HPV detecta a presença do vírus oncogênico, permitindo identificar a infecção antes do desenvolvimento de lesões precursoras. Segundo especialistas da Fundação do Câncer, o teste molecular é automatizado, reduz a subjetividade e tem alta sensibilidade: um resultado negativo assegura, em torno de 99% dos casos, baixa probabilidade de desenvolvimento de lesão precursora nos próximos cinco anos. Por isso, o intervalo recomendado de rastreamento aumenta para cinco anos entre mulheres com teste negativo. A mudança visa aumentar a efetividade das estratégias preventivas e reduzir falsos negativos e positivos associados à citologia.


Público‑alvo, periodicidade e encaminhamentos

No Brasil, o público‑alvo mantido para o rastreamento com DNA-HPV compreende mulheres de 25 a 64 anos. Diferente de alguns países que iniciam aos 30 anos, a decisão brasileira considerou a necessidade de evitar a coexistência de dois métodos na mesma unidade e a organização do fluxo de atendimento. A periodicidade também muda: com citologia, após dois resultados negativos anuais, a repetição ocorria a cada três anos; com o teste molecular, o intervalo pode ser ampliado para cinco anos diante de resultado negativo. Para resultados positivos, a conduta é estratificada: detecção dos tipos HPV 16 e 18 — responsáveis por cerca de 70% dos casos — leva ao encaminhamento imediato para colposcopia. Para outros tipos oncogênicos, a amostra é submetida a citologia reflexa no mesmo material coletado; se a citologia apresentar alterações, realiza‑se colposcopia; se normal, o acompanhamento é em um ano, por risco intermediário. Essas rotinas têm de ser implementadas de forma articulada na atenção básica e especializada para não romper a cadeia de prevenção.


Vacinação, metas da OMS e desafios para o SUS

A estratégia brasileira integra três pilares: vacinação, rastreamento e tratamento oportuno, em linha com a meta global da OMS. A vacinação de meninas (e meninos) entre 9 e 14 anos no Brasil é medida-chave de prevenção primária — se não há infecção por HPV, não há câncer associado. A pandemia e movimentos antivacina reduziram coberturas, e o Programa Nacional de Imunizações realiza desde o fim do ano passado ações de resgate para adolescentes de 15 a 19 anos, com duração prevista até meio de 2026. A vacina quadrivalente disponível no SUS protege contra os tipos mais associados ao câncer de colo do útero; para maiores de 20 anos, a vacina não é rotina no SUS e depende de decisão individual com o profissional de saúde. Para cumprir as metas da OMS até 2030 — vacinar 90% das meninas até 15 anos, rastrear 70% com teste molecular e tratar 90% dos casos identificados — é necessário estruturar toda a rede de atenção: logística de insumos, capacitação, fluxo de referência e acesso ao tratamento. A implementação, iniciada em setembro do ano passado em municípios de 12 estados, segue de forma gradativa, com ampliação planejada para outros estados mediante apoio técnico do Ministério da Saúde.

Foto: Reprodução/Internet

Deixe um comentário