Pesquisadores de 12 centros brasileiros reuniram dados de centenas de crianças expostas ao vírus Zika na gestação e publicaram, no fim de 2025, o maior estudo até hoje sobre as sequelas na infância. O levantamento, que descreve características clínicas, alterações neurológicas e sensoriais e impactos sociais, aponta um espectro amplo de manifestações — da microcefalia grave às alterações de desenvolvimento em crianças sem microcefalia ao nascimento — e reforça a necessidade de acompanhamento e políticas públicas direcionadas.
O estudo, coordenado pelo Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio) e publicado no periódico PLOS Global Public Health, consolida dados primários de diversas pesquisas brasileiras e traz números e recomendações que mudam a compreensão sobre a Síndrome Congênita do Zika (SCZ). A seguir, os principais achados, suas implicações para famílias e saúde pública e as recomendações dos autores. Com base em centenas de casos nascidos entre janeiro de 2015 e julho de 2018, o estudo descreve um perfil clínico característico da microcefalia associada ao Zika. A microcefalia ao nascer ocorreu em 71,3% das crianças, sendo 63,9% desses casos classificados como graves; 20,4% apresentaram microcefalia pós-natal. Entre outros achados perinatais estão prematuridade (entre 10% e 20%) e baixo peso ao nascer, com média de 33,2% (variação de 10% a 43,8%).
As malformações craniofaciais mais frequentes incluíram epicanto (40,1%), occipital proeminente (39,2%) e excesso de pele no pescoço (26,7%). Exames de neuroimagem mostraram calcificações cerebrais em 81,7%, ventriculomegalia em 76,8% e atrofia cortical em cerca de metade dos casos.
No campo neurológico, o estudo apontou déficit de atenção social em aproximadamente metade das crianças; persistência de reflexos primitivos em 63,1%; e taxas elevadas de epilepsia, com prevalência variando entre 30% e 80% e média de 58,3%. Quanto ao comprometimento sensorial, alterações oftalmológicas foram observadas em até 67,1% dos casos, enquanto alterações auditivas foram menos frequentes, mas relevantes.
Os pesquisadores destacam que a anatomia cerebral na SCZ é distinta: muitas crianças com infecção gestacional no segundo ou terceiro trimestre apresentaram crescimento cerebral inicial seguido de destruição celular e “colapso” estrutural, fenômeno que difere de microcefalias por outras causas.
Impacto socioassistencial e vida das famílias
O estudo não traz apenas dados clínicos: revela também o custo social e assistencial da doença. Cerca de 30% das crianças analisadas já morreram, segundo os autores, e as que permanecem vivas, com idades entre 8 e 10 anos, enfrentam grandes desafios para inclusão escolar. Muitas apresentam paralisia cerebral grave, déficits de atenção e dificuldades de aprendizagem que exigem adaptações pedagógicas e cuidado contínuo.
Pesquisadores do IFF/Fiocruz e de universidades parceiras relatam a sobrecarga sobre as famílias, em especial mães que, em alguns casos, foram abandonadas pelo companheiro após o diagnóstico. O acesso a serviços multidisciplinares — fisioterapia, fonoaudiologia, neurologia, oftalmologia e psicopedagogia — é desigual, e a peregrinação por atendimentos no SUS evidencia a necessidade de coordenação e investimento em redes de cuidado.
Os autores pedem atenção às políticas públicas: atenção primária capacitada para identificar atrasos de desenvolvimento, referência ágil a centros especializados e suporte social para famílias são medidas consideradas essenciais para reduzir o impacto da SCZ.
Prevenção, tratamento e acompanhamento a longo prazo
Não há tratamento antiviral específico para o Zika. As recomendações imediatas dos pesquisadores mantêm-se preventivas: controle do Aedes aegypti, uso de repelentes, roupas compridas e evitar áreas de surto durante a gestação. Os autores também reforçam a urgência do desenvolvimento de uma vacina destinada a mulheres em idade fértil.
Dada a ausência de sorologias confiáveis para identificar exposição gestacional em muitas grávidas (muitas infecções são assintomáticas), a detecção precoce por ultrassonografia e o seguimento pós-natal são cruciais. Mesmo crianças nascidas sem microcefalia, cuja mãe teve exposição ao vírus, devem ser acompanhadas de perto, pois podem apresentar atrasos de desenvolvimento que respondem bem a intervenções precoces.
A estimulação precoce — fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia — é apontada como estratégia fundamental para aproveitar a neuroplasticidade infantil e melhorar prognósticos. Os pesquisadores defendem acompanhamento multidisciplinar e contínuo durante toda a vida, com garantias de acesso pelo SUS, além de programas escolares inclusivos e formação de profissionais de saúde e educação para lidar com as necessidades específicas dessas crianças.









